Desorientação topográfica do desenvolvimento: conheça a condição que faz com que as pessoas se percam em suas próprias casas

2026-07-10     HaiPress

Se perder dentro de casa pode ser normal para algumas pessoas — Foto: Magnific

RESUMO

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GERADO EM: 09/07/2026 - 17:37

Desorientação Topográfica: Condição Afeta 1 em Cada 30 Pessoas no Brasil

A desorientação topográfica do desenvolvimento (DTD) afeta até uma em cada 30 pessoas,causando uma sensação permanente de estar perdido,mesmo em ambientes familiares. Pessoas com DTD têm dificuldade em formar mapas cognitivos,reconhecendo pontos de referência,mas sem integrá-los em um todo. Essa condição não é degenerativa,e a navegação pode ser melhorada por meio de treinamentos,inclusive em ambientes virtuais.

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Pense na última vez em que você usou o celular para encontrar um caminho. O que aconteceria se,no meio do trajeto,as instruções de navegação desaparecessem ou a bateria do telefone acabasse? É provável que você começasse a entrar em pânico. Mas,assim que reconhecesse algum ponto de referência ou conseguisse pedir informações a alguém,essa sensação geralmente diminuiria,permitindo que você se adaptasse.

Para algumas pessoas,porém,essa sensação de estar perdido nunca desaparece. Ela pode acontecer até mesmo dentro da própria casa.

Algumas estimativas sugerem que até uma em cada 30 pessoas pode ser afetada pela desorientação topográfica do desenvolvimento (DTD,na sigla em inglês). Essa condição é descrita como uma incapacidade permanente de se orientar,mesmo em ambientes extremamente familiares.

Pessoas com DTD relatam se perder com frequência — pelo menos algumas vezes por semana — desde a infância. A condição não é causada por lesão cerebral,doença neurológica ou transtorno psiquiátrico. Pelo que os pesquisadores sabem,esse é simplesmente o modo como o sistema interno de navegação dessas pessoas sempre funcionou.

As primeiras pesquisas sobre a DTD concentravam-se nos casos mais graves,em que a desorientação era tão incapacitante que levava os pacientes a procurar ajuda profissional. Hoje,sabe-se que existe uma grande variação entre os casos. As formas mais leves podem passar despercebidas durante toda a vida,sendo vistas apenas como alguém que "não tem senso de direção".

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Na última década,o termo DTD passou a abranger uma ampla variedade de dificuldades de navegação. Essa ampliação acabou reduzindo a precisão do diagnóstico,dificultando tanto a compreensão quanto o desenvolvimento de formas adequadas de apoio para essas pessoas.

Por isso,nossa pesquisa busca diferenciar esses diferentes tipos de comprometimento na navegação espacial. O foco está em um grupo específico de pessoas com DTD: aquelas que não conseguem formar um mapa cognitivo.

Como construímos um mapa mental do mundo

A maioria das pessoas entende o ambiente ao seu redor criando uma representação mental dos pontos de referência e de como eles se relacionam entre si e consigo mesmas. Essa representação é conhecida como mapa cognitivo.

É ele que nos permite prever o que existe na próxima esquina e encontrar o caminho entre dois lugares quase automaticamente,sem precisar pensar muito.

Ter um mapa cognitivo também nos dá flexibilidade para nos deslocarmos. Conseguimos atravessar uma rua pela qual nunca passamos antes ou apontar aproximadamente onde fica nossa casa,mesmo estando em um lugar desconhecido.

Após trabalhar diretamente com pessoas que vivenciam essa experiência,por meio de entrevistas e consultas,propomos que esse subtipo receba o nome de atopia,termo que significa literalmente viver sem um lugar ou sem um mapa.

Pessoas com atopia não conseguem construir um mapa cognitivo do ambiente. Apesar de terem boa memória para reconhecer pontos de referência — ou seja,conseguem identificar e lembrar características marcantes dos lugares —,elas nunca conseguem integrar essas informações em um único mapa mental.

Isso significa que podem saber,por exemplo,que a casa fica perto da estação e que as lojas ficam próximas da casa,mas essas informações permanecem como fatos isolados,em vez de formar uma representação completa do espaço.

Assim,quando um percurso habitual é interrompido — por causa de uma rua interditada,uma curva errada ou a aproximação de um prédio por um lado diferente do habitual —,não existe um mapa mental ao qual recorrer. Os pontos de referência ajudam a reconhecer o que está sendo visto,mas não mostram como tudo se conecta.

Como explicou um dos participantes da pesquisa:

"Na minha cabeça,estou sempre em apenas um lugar,então não consigo imaginar como é o ambiente ao meu redor."

Quando tarefas simples de orientação se tornam mais difíceis,pessoas com atopia podem desenvolver comportamentos mais rígidos,evitar sair de casa ou depender constantemente de aplicativos de GPS. Esse comportamento pode ser interpretado,de forma equivocada,como desatenção,ansiedade ou até falta de inteligência — o que não tem fundamento,mas pode trazer consequências negativas importantes.

Sem o apoio adequado,essas pessoas podem perder rapidamente a autonomia. Uma das participantes da pesquisa,não saía sozinha para locais que ficassem a mais de algumas quadras de casa,pois dependia do marido para se deslocar.

É possível melhorar a orientação espacial?

A boa notícia é que tanto a atopia quanto a DTD não são condições degenerativas,e a capacidade de navegação pode ser treinada mais do que muita gente imagina.

Há evidências de que a navegação funciona de maneira semelhante a um músculo: quanto menos é exercitada,mais enfraquece. Em um estudo,pessoas que deixaram de usar seu próprio senso de direção e passaram a depender fortemente do GPS apresentaram pior memória espacial quando precisaram encontrar um caminho sem o auxílio da tecnologia. Acompanhadas por três anos,aquelas que utilizavam mais intensamente o GPS mostraram um declínio ainda maior nessa habilidade.

Pesquisas anteriores também demonstraram que programas de treinamento em ambientes virtuais podem ajudar pessoas com DTD a melhorar sua orientação espacial.

Atualmente,estamos testando um treinamento semelhante voltado para pessoas com atopia. Desenvolvemos um programa virtual de seis semanas que busca reduzir as dificuldades de navegação e aprimorar as habilidades de orientação dessas pessoas.

Da próxima vez que você pegar o celular para seguir uma rota,talvez valha a pena fazer uma pequena pausa. Será que ainda conseguiria encontrar o caminho sem ele?

Essa extraordinária capacidade de nos orientar pelo mundo é algo que muitos de nós consideramos natural. Talvez seja hora de exercitá-la antes que ela se enfraqueça.

* Isabelle Kaiko é pesquisadora de pós-doutorado em Neuropsicologia,Universidade de Leiden; Ineke van der Ham é professora de Inovações Tecnológicas em Neuropsicologia,Universidade de Leiden; Judith Schomaker é professora assistente do Departamento de Saúde,Psicologia Médica e Neuropsicologia,Universidade de Leiden.

* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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