07-13
Aos leitores de 90 anos, um abraço: se a canoa não virar, eu chego lá
2026-07-15
HaiPress

Idosa com bengala na mão — Foto: Freepik
RESUMO
Sem tempo? Ferramenta de IA resume para vocêGERADO EM: 14/07/2026 - 22:57
Desafios da Terceira Idade: Tecnologia e Respeito aos Idosos
O artigo aborda os desafios enfrentados pelas pessoas de 90 anos,destacando não apenas as dificuldades associadas à idade,mas também aquelas impostas por sistemas e tecnologias modernas,como bancos e serviços digitais,que complicam a vida dos idosos. O autor reflete sobre a importância de reconhecer e respeitar as necessidades dos mais velhos,pedindo desculpas por qualquer mal-entendido anterior e expressando gratidão pela atenção e críticas construtivas dos leitores idosos.O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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A carraspana veio inclemente: “Te faltou autocrítica ou talvez foi excesso de Nescau”. A leitora ficou muito chateada com uma frase que escrevi na semana passada: a que falei dos vovôs de 90,que,por acaso,estão estropiados. Ela entendeu que todos eles são estropiados e isso a deixou,com razão,indignada. Erro meu,que não deixei claro o que quis dizer. Pedi perdão,mas fiquei triste com o mal-entendido.
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Sei que tenho vários leitores de 90 anos. Eles mesmos se identificam,quando me encontram na rua. São simpáticos e sinceros: quando não gostam de algo deixam isso claro,quando gostam também. Chega uma idade em que você não quer mais perder tempo com firulas e salamaleques. Sou grato pelos conselhos,pelas broncas e fico lisonjeado ao saber que alguém que chegou tão longe me dá um pouco da sua atenção.
Não é fácil chegar aos 90,tô sabendo. Menos pelos próprios problemas da idade do que pelos que são criados por outros. Minha mãe,por exemplo,está chegando lá. “Ainda falta!” me dirá ela ao telefone,assim que ler esta coluna. Acompanho de perto suas dificuldades. Os bancos,por exemplo: qual a necessidade que têm de complicar a vida dos seus clientes mais antigos? A agência dela era na esquina de casa. Como outras tantas,fechou. Agora ela tem que caminhar vários quarteirões. Obviamente a nova agência vive lotada e sua suposta prioridade não lhe vale muito: vive em Copacabana e por lá poucos têm menos de 80.
Mesmo na agência o atendimento humano é uma espécie em extinção: os clientes são empurrados para as máquinas de autoatendimento. E tome senhas,códigos,reconhecimentos faciais,digitais e menus longos e complicados. Mas é a tecnologia moderna,não podemos fazer nada contra,dizem muitos. Peraí,digo eu: quem é que se beneficia com essa tal “tecnologia”,além dos próprios bancos? Pior: fazem os clientes se sentirem culpados por não dominar o que não é responsabilidade deles. Parece justo?
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Tem mais: agora tudo precisa ser feito pelo celular. Ok,facilita a vida de alguns,mas quem o usa apenas para falar com os filhos ou trocar mensagens com os netos? Não importa,hoje é necessário ser um especialista em informática para sobreviver. Mais uma vez: quem ganha com essa modernidade toda?
Quem perde,eu sei: os mais velhos. A minha mãe,por exemplo. Não só ela tem que entender tudo de celulares,como também tem que estar a par dos últimos golpes digitais. O banco diz para ela resolver na telinha do celular,mas finge de morto quando o seu telefone toca,aparece o nome do banco e a pessoa que finge ser o gerente sabe seu CPF,sua conta e endereço da agência. O lucro é do banco,mas o prejuízo dos golpes fica apenas com os clientes. Dizem que isso é modernização. Tá bom,conta outra...
Não são só os bancos: vocês já usaram .gov para alguma coisa? Tentaram pagar o IPVA pelo site do Detran? E os aplicativos dos planos de saúde? A lista de “novidades” hostis aos veteranos só aumenta.
Às vezes é preciso lembrar do mais óbvio: Todos nós,se tivermos sorte,vamos envelhecer. Quem esquece ou cria dificuldades para os mais velhos vai acabar pagando caro pelo que fez. À leitora que me passou um sabão,mais uma vez peço desculpas e aviso que cortei o Nescau. Aos leitores de 90,um abraço: se a canoa não virar,eu chego lá.
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