03-31
Falta de pudor! Pouca vergonha!
2025-03-17
IDOPRESS
Capa da revista Confidencial,pós-carnaval de 1959 — Foto: Reprodução
RESUMO
Sem tempo? Ferramenta de IA resume para vocêGERADO EM: 16/03/2025 - 22:09
Revistas de escândalos perdem espaço; foco está na política pós-carnaval
Antigamente,revistas de escândalos pós-carnaval denunciavam a "corrupção dos costumes",chocando-se com beijos e danças. Hoje,vistas como nostálgicas e até cômicas,essas publicações perderam relevância. No carnaval atual,a verdadeira "corrupção" está nas emendas do Congresso,refletindo mudanças nas preocupações sociais,onde a liberdade pessoal é mais aceita.O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Foi no tempo do escândalo,das manchetes com ponto de exclamação,do “onde-já-se-viu” – e uma semana depois do carnaval as revistas estavam nas bancas com seus títulos sobre a pouca vergonha que grassou na sociedade carioca,a Sodoma e Gomorra dos depravados,a degradação geral dos costumes,a lama que tinha tomado conta da cidade.
“Corrupção e vergonha do carnaval! Três dias que abalaram o reinado de Momo!”,chocava-se a capa da “Confidencial” de 1959,que carregava como ilustração a foto,na boate Fred’s,em Copacabana,de uma senhora de maiô-saiote beijando um cidadão de camisa de manga comprida e calça idem. A “corrupção” do título era a moral,da perda dos valores cristãos,dos cínicos e,sempre entre aspas,a da falta de pundonor.
“Entregues ao deboche e no auge da farra,homens e mulheres confundem seus instintos”,continuava o texto da revista,agora descrevendo a foto de duas moças de short dançando sobre cadeiras.
As revistas de escândalo,uma nostalgia do tempo em que os moralistas se boquiabriam invejosos com um beijo entre desconhecidos no meio do salão,pareciam editadas pela frase de Nelson Rodrigues,“o pudor é a mais afrodisíaca das virtudes”.
Elas lubrificavam a imaginação desses leitores com o que chamavam de perdição,podridão. Um exemplo é a foto de um casal,na revista “Escândalo”,também do final dos anos 50,ele de tirolês,ela de baiana,que fumava sentado nos degraus do baile: “Vai ver,é maconha!”,enchia-se de rubor a legenda.
Vistas assim de hoje,essas revistas,com seus tarados de jardim de infância,seus canalhas de chanchada,são de morrer de rir. Não me desfaço da minha coleção. Numa “Código Secreto” da mesma década,um marinheiro beija uma colombina que carrega um tubo de lança-perfume,legal na época. A legenda parece tirada do Apocalipse: “Se amanhã um novo dilúvio universal desabasse sobre a Terra,talvez a humanidade se depurasse de seus vícios,de suas mazelas físicas e morais”.
Graças a Deus,ao Rei Momo e à Paolla Oliveira,neste carnaval que passou,por mais que o calor infernal fizesse os foliões rogarem o derramamento de águas,não desabou nenhum dilúvio depurador sobre a Terra. Beijou-se na boca de quem quisesse ser beijado na boca,e foi confirmado o preceito constitucional buarquiano,artigo único,parágrafo primeiro – não existe pecado do lado de baixo do Equador.
Sessenta anos depois a revista de escândalos é um confete marrom colado na memória do preconceito nacional. Deixou de chegar às bancas com seus beijos de sessão da tarde,seus pontos de exclamação espantados com a liberdade do prazer alheio.
No carnaval de 2025,a “corrupção” não foi mais a denunciada na capa da “Código Secreto”. Ela estava nas fantasias de uns foliões,vistos em vários blocos. Vestiam paletó e cuecas samba canção com desenhos de cifrões,numa lembrança pitoresca de que a moral e os bons costumes são fluidos. Ninguém se importa mais com o que o próximo faz de seus desejos. O grande escândalo agora é federal,a orgia sem compostura das emendas do Congresso. Aquilo sim,que bacanal de sem vergonhas!!!
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